Quando a fala torna-se instrumento do racista?
A fala representa a linguagem oral que utiliza o sistema de sinais verbais é o meio mais democrático de comunicação. A partir da evolução dos territórios e das sociedades, a fala comumente assume valores simbólicos e políticos. Por essa questão, é preciso, sobretudo, analisar a enunciação nos aspectos de quem e sobre o que se fala, pois a linguagem oral pode falsear consciência sobre si, sobre culturas e sobre povos para que não predominem estruturas de dominação. Portanto, o sentido do enunciado que delineia o significado do contexto alinha-se a Bakhtin (2009, p. 134):
Conclui-se que o tema da enunciação é determinado não só pelas formas linguísticas que entram na composição (as palavras, as formas morfológicas ou sintáticas, os sons, as entonações), mas igualmente pelos elementos não verbais da situação. Se perdermos de vista os elementos da situação, estaremos tampouco aptos a compreender a enunciação como se perdêssemos suas palavras mais importantes.
Na perspectiva de não perder os elementos da situação da comunicação oral, principalmente observando as relações de poder, é necessário perceber que as falas racistas reafirmam a violência física e simbólica para continuar mantendo a hierarquia de poder no Brasil. As falas racistas, portanto, complementam as estratégias de propagação do racismo no imaginário coletivo, tal qual o racismo científico, lei de encarceramento em massa, como Lei de Vadiagem, a Lei contra práticas de Capoeira, a Lei de Redução da Maioridade Penal para crianças negras, a Lei contra o Culto da Religião de Matrizes Africanas, dentre outras ações que o Estado implementou ao longo de 400 anos de contexto de trabalho escravo, que desumanizou , restringiu as pessoas negras de bens materiais e participação nas relações de poder.
Para Bakhtin (2009) a ideologia é uma grande estrutura que chega ao pensamento do indivíduo por meio da palavra construído dessa forma, a consciência por meio da ideologia, “[…] a palavra é o fenômeno ideológico por excelência […], é o modo mais puro e sensível da relação social” (Bakhtin, 2009, p. 36). A partir dessa contextualização , a plataforma Racista não me Trisca! elenca contextos de falas racistas usadas estrategicamente para desumanizar a preta e o preto no Brasil. Esses falares embora usuais, não devem ser considerados “natural” mesmo que você possa ter ouvido ou até mesmo reproduzido algumas dessas falas racistas:
- Seu cabelo é ruim: o cabelo é um dos principais alvos do discurso do racista na medida em hipervaloriza o padrão de cabelo liso e depreciar o cabelo negro;
- Você é da cor do pecado: considerando que o Brasil é um país religioso, considerar o negro da cor do pecado é uma forma de demonizar, de hiper- sexualizar o corpo negro desumanizando-o;
- Você é uma negra de traços finos: ideia de retirar os traços negroides e deixar o negro mais próximo do branco porque o racista acredita que ser negro é um problema então minimizar a negritude desassociando da comunidade negra;
- Neguinho quer enganar a gente: essa fala racista alimenta a ideia de que o malfeitor é sempre o negro;
- Você tem o pé na senzala: expressão que remonta o Período Colonial, no qual o único lugar permitido ao negro era a senzala, é um termo racista prima pela manutenção das relações de poder nas quais o negro não tinha direito aos bens materiais que produziram e nem lugares de destaque na sociedade;
- Pra uma pretinha, você até que é bonitinha; expressão racista que tem por finalidade de desumanizar e estereotipar a beleza negra, além disso passa a ideia que dentre os feios pretos fenotipicamente, alguém tenta se sobressair por ser bonitinha.
- Você é um negro de alma branca: uma fala racista que afirma que apesar de preta é boa e por isso a alma , uma vez que as características fenotípicas são de um negro, só resta embranquecer a alma , ´pois o preto é o ruim;
- Isso é trabalho de preto: deveria ser um elogio uma vez que as riquezas do Brasil foram construídas por braços ancestral da negritude;
- Não sou tuas negas : fala extremamente racista e machista e remonta ao Período Colonial quando para mulher negra tida como aquela podia fazer tudo e era propriedade dos homem branco , um tempo regido por assédios e estupros.
- Hoje é dia de branco: significa que dia de trabalho como se o negro não trabalhasse no Brasil;
- Isso é MIMIMI: uma expressão que tenta desarticular a fala de quem reclama por direitos negados;
- “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas (arroba é uma medida usada para pesar gado; cada uma equivale a 15 kg). Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele servem.” Essa frase racista foi dita por um deputado federal (PSC-RJ) é mais um braço do estado que chega nos territórios de pessoas negras desumanizando-as e comparando a animais irracionais (Bolsonaro […], 2017).
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Bibliografia consultada
BAKHTIN, Mikhail (Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. 13. ed. São Paulo: Hucitec, 2009.
BOLSONARO é acusado de racismo por frase em palestra na Hebraica. Veja, 6 abr. 2017. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/bolsonaro-e-acusado-de-racismo-por-frase-em-palestra-na-hebraica Acesso em: 15 fev. 2023.



